Criando um app de finanças pessoais do zero: analisando o mercado e o cenário econômico brasileiro
Analisei os 10 apps de finanças pessoais mais populares do Brasil para identificar os principais pontos positivos e negativos apontados pelos próprios usuários

Vou publicar uma série de posts contendo toda a (longa) jornada da criação de um app de finanças pessoais, desde a concepção até a disponibilização para o usuário final.
Minha ideia é ir aprendendo sobre o mercado (e produto) e compartilhar tudo aqui.
Introdução
Por boa parte da minha vida adulta, achei que controlar gastos era um saco. Pensava que se eu ganhasse dinheiro suficiente, não precisaria perder tempo com isso.
Mas em algum momento, houve uma virada de chave na minha cabeça.
Percebi que, vivendo em um mundo capitalista, quem entende menos de capital sempre vai estar em desvantagem em relação a quem entende mais. Ou, sendo ainda mais realista: quem tem mais capital sempre vai ter mais poder sobre quem tem menos.
É meio óbvio, né? Pois é. Mesmo assim, muita gente ainda parece negar essa realidade. Eu mesmo neguei durante bastante tempo.
Enfim, aceitei que precisava entender mais sobre o assunto, e que controlar a minha grana era o primeiro passo. Então, fui procurar uma ferramenta que me ajudasse nisso.
Importante: isso aconteceu há cerca de 10 anos. Não é algo recente.
A jornada começou: instala app, desinstala app, tenta de novo, desinstala de novo.
Nenhum parecia me atender plenamente. Todos muito engessados. Sem graça.
Desisti dos apps.
Virei aquilo que eu mais temia: um usuário avançado de Excel. O tipo de coisa que a gente evita admitir na frente dos amigos.
Se você me acompanhava nos tempos de Aparelho Elétrico, talvez lembre que eu até compartilhei no blog uma planilha de controle de fluxo financeiro chamada Kiwi, que tinha vários recursos avançados.
Mais de 10 anos se passaram. Os apps evoluíram, ganharam mais recursos e, com IA, muito mais pirotecnia também. Mas a verdade é que ainda lutam pra convencer os usuários de que são melhores do que as planilhas.
A planilha é grátis. Seus dados estão mais seguros. Ela é versátil: você constrói o recurso que quiser e cruza os dados da forma que quiser.
Claro, a UX sofre. Prefiro andar em brasas do que editar uma planilha no celular. Mas, no fim, em muitos casos, ainda é uma troca que compensa.
Ainda que seja um desafio grande, decidi criar um app que finalmente me tire dessa vida de planilheiro. Quero desenvolver algo que realmente me atenda e me mantenha engajado no controle do meu dinheiro.
Sendo um cara de produto, não quero ficar fechado no meu próprio mundinho resolvendo apenas os meus problemas. Vou aproveitar a ideia para estudar o mercado e os usuários também.
Pra começar, fui analisar os principais aplicativos de finanças pessoais do Brasil para entender o que eles estão entregando de valor para conquistar a maior parte dos usuários.
Além disso, também decidir olhar para o cenário econômico atual do país para entender se uma ferramenta de controle financeiro pessoal realmente faria sentido no contexto brasileiro atual.
Principais Competidores
Os principais apps de finanças pessoais do Brasil hoje são os listados abaixo, considerando o ranking de downloads:
- Mobills
- Minhas Finanças
- Organizze
- Minhas Economias
- Fortuno
- Pierre
- iDinheiro
- Procfy
- Grana Zen
- Contas Online
Pedi ao Claude pra gerar um relatório em PDF sobre cada um dos players mencionados acima, reunindo as principais reclamações e elogios dos usuários. Caso você tenha interesse nesse material, é só pedir pelo meu formulário de contato que eu envio.
Os insights compartilhados abaixo foram baseados nesses relatórios.
Reclamações dos usuários
Essas são algumas das principais frustrações dos usuários atualmente.
Open Finance
O que, a princípio, seria a solução perfeita para aliviar o trabalho manual de cadastrar lançamentos não funciona como esperado em praticamente todos os apps.
Muitos usuários reclamam de valores incorretos e falta de sincronização.
Já pensou tomar uma decisão financeira com base em um dado errado?
Fiquei realmente surpreso com isso. Achei que o Open Finance estivesse muito mais maduro e confiável a essa altura.
Remoção de recursos livres
Usuários reclamam que funcionalidades antes disponíveis gratuitamente acabam migrando para os planos pagos.
Esse é um problema recorrente em apps de vários segmentos. A empresa identifica uma feature muito utilizada e a move para o plano premium.
Entendo o lado da empresa de precisar alavancar receita. Algumas fazem isso de maneira desonesta; outras, por puro desespero para manter o produto funcionando.
Independentemente do motivo, é um movimento que raramente pega bem com os usuários. A frustração é quase inevitável.
Bugs
Falhas que fecham os apps, servidores fora do ar, lançamentos não registrados e até dificuldade de login aparecem com frequência entre as reclamações
Uma falha em um app de finanças gera uma sensação completamente diferente da falha em uma rede social, por exemplo.
O usuário dedica horas e horas da própria vida para manter sua grana em ordem. Ele não vai querer depender de uma ferramenta que pode remover o acesso dele ou até fazer ele perder todo seu histórico financeiro.
Suporte
Usuários reclamam de retorno muito lento, ou inexistente, por parte da maioria dos aplicativos.
Este é outro gargalo recorrente, especialmente em empresas que trabalham com planos gratuitos. Quem não paga normalmente perde prioridade e acaba dependendo da documentação pública ou da comunidade.
Preço
Muitos usuários acreditam que o valor cobrado não condiz com o serviço entregue.
O Open Finance aparece novamente como exemplo. É um recurso pago que simplesmente não funciona direito.
Cobrar por algo que você não consegue entregar pode arranhar a imagem do seu produto pra sempre.
Recursos básicos ausentes
Usuários reclamam da ausência de funcionalidades consideradas básicas, como:
- Lançamentos recorrentes;
- Exportação para Excel;
- Planejamento financeiro futuro;
- Lançamento manual.
Aparentemente, aqui está havendo uma falha entre o que é comunicado antes do onboarding e o que o usuário realmente encontra após entrar na plataforma.
Ausência de app ou versão desktop
Muitos usuários querem poder alternar entre celular e desktop mantendo a mesma experiência.
Alguns apps oferecem apenas aplicativo mobile, outros apenas versão web.
Curioso perceber como vários produtos ainda não estão adaptados ao contexto real de uso das pessoas.
Eu, por exemplo, preferiria fazer lançamentos manuais no desktop. Mas conheço quem use o celular para tudo e usa o computador só em último caso.
Independentemente, o acesso à internet acontece majoritariamente via smartphone. Então, no mínimo, uma experiência mobile-first parece obrigatória.
Excesso de anúncios
Usuários reclamam do excesso de propagandas, inclusive em planos pagos.
Aqui surge uma contradição interessante: os usuários reclamam dos anúncios, mas também reclamam do preço das assinaturas.
É justamente dessa encruzilhada que surgem modelos híbridos, como os planos mais baratos com anúncios adotados pela Netflix.
No fim, o usuário paga de acordo com a sua tolerância à publicidade.
Dificuldade de cancelamento
Usuários relatam resistência em processos de cancelamento e reembolso, além de falta de transparência nas cobranças.
Provavelmente, isso está ligado à clássica prática de cadastrar o cartão para testar a plataforma e esquecer de remover.
Quem supostamente resolve esse problema muito bem é o Duolingo, que promete avisar o usuário 48h antes da cobrança no cartão.
Esse tipo de transparência melhora a percepção da marca. Afinal, quem confia em uma empresa que parece depender da distração do usuário para faturar?
Elogios dos usuários
Agora vamos ver o que os usuários enxergam de positivo nos produtos analisados.
Interface
De forma geral, os usuários estão satisfeitos com as interfaces disponíveis no mercado.
Acho isso curioso, porque as interfaces que vi até agora não parecem modernas ou visualmente atraentes.
Por outro lado, mudanças drásticas em produtos consolidados costumam gerar pilhas de reclamações dos usuários. Usuários, no geral, não gostam de mudanças bruscas.
Vejo aqui uma vantagem para novos players, que podem nascer já alinhados às tendências atuais de UX/UI.
Facilidade de uso
O processo de registro de movimentações é considerado rápido e prático, mesmo em aplicativos com preenchimento manual.
Há destaque para soluções de automação via WhatsApp (texto, áudio e foto) e via captura automática de notificações do celular.
Este é um ponto crucial. Registrar movimentações é burocrático e cansativo. Ainda assim, é legal ver que os usuários estão considerando o processo prático, seja de forma manual ou automática.
Acredito que o maior desafio de um app financeiro seja justamente esse: reduzir o peso operacional do usuário sem comprometer a confiança na plataforma.
Personalização e flexibilidade
Usuários valorizam personalização como:
- Temas;
- Categorias;
- Subcategorias;
- Tags;
- Perfis;
- Personalização da tela inicial.
Antes mesmo de encontrar isso nos relatórios, eu já vinha pensando que a personalização poderia ajudar a quebrar o tom repetitivo e burocrático típico desse tipo de app.
Interessante confirmar que os usuários realmente valorizam isso.
Lembrando que a Gen Z, que provavelmente deve ser o principal target desses apps, valoriza experiências personalizadas.
Gráficos
Os usuários valorizam bastante gráficos financeiros, especialmente:
- Linhas;
- Barras;
- Pizza;
- Projeções futuras.
Quando passei pela minha fase intensa de apps, anos atrás, os gráficos deixavam muito a desejar. Eu nunca conseguia cruzar os dados que realmente precisava.
Então, é interessante ver que esse aspecto evoluiu a ponto de aparecer entre os principais elogios dos usuários.
Multiplataforma
Usuários elogiam apps que permitem acessar os dados de qualquer dispositivo, desktop ou celular.
A ausência de versões mobile ou desktop aparece nas reclamações. Aqui, a presença delas aparece como diferencial competitivo.
Isso reforça o quanto a experiência multiplataforma é importante.
Relatórios
O envio de relatórios mensais por e-mail também aparece como diferencial competitivo.
Isso mostra um amadurecimento do usuário em relação à educação financeira.
É legal perceber que o mercado nacional adota features desse nível.
Funcionamento offline
Usuários valorizam apps que continuam funcionando mesmo sem conexão com a internet.
O foco precisa ser manter o usuário motivado a registrar movimentações, uma tarefa que já é naturalmente pouco estimulante. Tudo o que cria atrito nesse processo pode afastar o usuário.
Opções gratuitas
Apps que oferecem versões gratuitas tendem a ganhar preferência.
Isso era esperado. O desafio está em encontrar um modelo sustentável sem cobrar do usuário, sem abusar de anúncios e sem comprometer privacidade.
Suporte
Suporte técnico eficiente também aparece entre os elogios.
Isso mostra que algumas empresas estão fazendo um excelente trabalho nessa área.
Como alguém que já trabalhou com suporte, sei o quanto um atendimento de qualidade impacta a percepção do produto.
Segurança, privacidade e transparência
Usuários valorizam:
- Criptografia de ponta a ponta;
- Conformidade com a LGPD;
- Apps que não comercializam dados.
Outro indicativo de que o usuário brasileiro está mais consciente sobre privacidade e modelos de negócio digitais.
Outros insights relevantes
Aquisições
Aquisições de apps por empresas maiores são frequentes.
- Mobills foi comprado pela Toro/Santander;
- Guiabolso comprado pelo PicPay;
- Pierre comprado pela CloudWalk;
- Olivia comprado pelo Nubank.
Pelo que observei, após as aquisições, os apps acabam sendo descontinuados ou incorporados de maneira pouco eficiente aos produtos das empresas compradoras.
Vi muitos usuários frustrados abandonando as plataformas depois dessas mudanças. Alguns passaram por mais de uma aquisição. Imagina o desgaste.
O queridinho do momento
O app que parece estar crescendo mais rapidamente é o Pierre, apostando fortemente em IA conversacional.
Pelo visto, ele acabou atraindo parte da base órfã do Olivia.
Período de testes
A maioria dos apps oferece apenas 7 dias de teste gratuito. Para um app de finanças pessoais, isso parece pouco.
Um ciclo de teste ideal deveria cobrir pelo menos um mês completo, permitindo ao usuário acompanhar:
- Entrada de salário;
- Pagamento de contas;
- Parcelamentos;
- Cartão de crédito;
- Decisões financeiras recorrentes.
Além disso, existe o estudo bastante citado que afirma que um hábito leva 66 dias para ser formado.
Nesse contexto, um período de testes de 90 dias faria muito mais sentido. A questão é: será que o modelo de negócios suportaria isso?
Cenário econômico brasileiro
Alguns dados econômicos também indicam que o momento atual pode ser favorável para o lançamento de um app de finanças pessoais.
Os números mostram um brasileiro financeiramente pressionado e isso tende a aumentar a busca por ferramentas de controle financeiro.
O percentual de famílias endividadas ultrapassou 80% em 2026. No ano anterior, estava próximo de 77%.
O número de apostadores problemáticos cresceu no último ano.
Uma pesquisa do CNDL/SPC mostrou que 37% dos inadimplentes não fazem controle financeiro . E, segundo a mesma pesquisa, 17% dos entrevistados controlam as finanças “de cabeça”. Que perigo.
Já uma pesquisa da Febraban mostra que cerca de 8 em cada 10 brasileiros afirmam ter preocupação com o controle de gastos. Ou seja, existe interesse.
Além disso, mais 170 milhões de brasileiros utilizam o PIX. O dinheiro já circula pelo celular das pessoas. Existe uma oportunidade clara aqui.
Somado a isso, o país continua enfrentando inflação alta persistente e perda de poder de compra.
Nesse cenário, acompanhar as finanças de perto deixa de ser opcional.
Conclusão
Olhando para todas essas informações, fica evidente que há espaço para aplicativos de finanças pessoais na vida do brasileiro.
Apps como o Mobills, com mais de 10 milhões de downloads e mais de uma década de operação, demonstram que há demanda real por esse tipo de solução.
O cenário econômico atual, marcado por endividamento, inflação, juros altos e crescimento das apostas, também contribui para que mais pessoas busquem ferramentas de controle financeiro.
Porém, o desafio é grande.
Um novo app teria que encontrar um modelo de negócios sustentável em um contexto onde:
- O usuário está com pouco dinheiro disponível;
- Existe resistência ao compartilhamento de dados;
- Anúncios geram rejeição;
- E muitos usuários já passaram por experiências traumáticas com aquisições e descontinuações.
Ou seja, o cenário atual é, ao mesmo tempo, estimulante e desafiador. E normalmente é justamente desse tipo de combinação que surgem as melhores inovações.